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Uma carta para minha mãe

Oi mãe, tudo bom?

Faz um tempo que não te escrevo né? Mas, não há um só dia que eu não pense em você. E isso é um fato, não apenas uma forma de dizer.

Se não te escrevo mais tanto é porque me falta tempo. E com dois filhos, quando sobra tempo não me sobra energia. Bem, você sabe disso melhor que eu né.

Vou começar esta carta contando sobre seus netos. Não por a toa. Sei que são de quem você mais gostaria de saber.

Seus netos estão bem. E são lindos!

O Bernardo está com 5 meses, já fica durinho e começou a rolar na cama. Acredito não demorar muito para começar a engatinhar. Ele tem um sorriso fácil, mas uma personalidade forte e chora muito quando não consegue aquilo que quer (no caso, colo). Isso te lembra alguém rs?

A Isa está com 3 anos e meio já. Fala como se tivesse 5. Parece ser meio desengonçada para esportes, mas ainda é muito pitica né, vamos ver quando crescer mais um pouco. Gosta muito de sorrir e de me sacanear. E eu adoro isso.

Outro dia ela deixou flores para você lá na igreja Santa Rosa de Lima, que você ia de segunda-feira. Você recebeu? Falamos para ela que você agora é uma estrelinha que mora no céu.

Como estou saindo como pai? Não sei, mas acho que bem. Adoro brincar com eles, proteger, cuidar, dar banho… até trocar fraldas eu troco. Logo eu que sempre tive estômago fraco e passava mal com qualquer cheiro, lembra? Brinco com eles, mas brigo bastante também. A Isa é fogo mãe, se não brigar ela monta na gente. Mas… você sabe disso né?

Se vou te dar mais netos? Provavelmente não. Quero fazer a vasectomia logo no começo do ano. Dois já está de ótimo tamanho.

O pai está bem. É um vovô babão. Parece que lhe falta ar quando os netos não estão.

Ele fica frustrado de não poder pegá-los no colo em pé e andar com eles, mas, de qualquer forma, quer eles por perto o tempo todo. Quando chego em casa a primeira coisa que pergunta é “cadê meus netos?” E eu respondo “oi pai, estou bem, obrigado por perguntar rs”.

Ele passou por um período complicado, ficando internado várias vezes entre 2011 e 2015. Até que largou o cigarro e não internou mais. Esse maldito cigarro que, sem ele, talvez você ainda tivesse perto de mim…

Então, numa dessas internações o pai ficou com um problema na coluna e agora tem dificuldade para andar. Por isso ele não consegue segurar as crianças em pé. Às vezes ele cai, mas mais quando toma umas e outras, sabe como é né? Mas, fica tranquila, eu e o Bé estamos sempre por perto cuidando dele.

O Bé está muito bem. Mora aqui perto. Casou com a Iara, aquela da vida de merda, lá da minha turma da faculdade, lembra rs? Que achou que a Sandinha era minha mãe (vaca loira) hahahaha.

Eles estão bem e são muito felizes. Ainda não tem filhos, mas um dia terão, foram feitos para isso.

O Bé tá dando aula em faculdade. Aposto que você morreria de orgulho disso.  E é um tio (e padrinho) exemplar, apesar de não trocar fraldas rs.

A Marina ainda está aqui com a gente, cuidando da gente e das crianças. A Isa adora a Malina. E a Marina é outra que não quer nem saber de mim quando chego sem as crianças.

A família continua unida. Meus primos estão bem e seus filhos estão enormes. O Rafa teve 3 filhos. A Brenda já está com 15 anos, acredita? E a Marcela que fez DEZOITO! Esse tempo não vai parar nunca não?

Quer saber um pouco de mim? Bem, eu casei com a Tábada, lá da escola, lembra? Nos mudamos recentemente, mas aqui perto da casa do pai. Fica tranquila que não vou abandonar o véinho. Aliás, venho todo dia na casa dele para trabalhar. Estou com a agência ainda, mas trabalho de casa.

Mudei para um apartamento. O condomínio é muito legal, você iria adorar lá.

Mãe, quando falei que penso em você todo dia é verdade viu. Não sei quem disse que saudade diminui com o tempo. Nem a saudade diminui, nem a ausência. Não ter você por perto é uma constante dor.

Mas, o que mais me dói hoje, não é você não estar perto de mim. É não estar perto dos seus netos. Queria tanto que eles crescessem com sua companhia e vissem quanto maravilhosa você era, porque por mais que eu fale de você, nunca conseguirei transmitir o que você realmente era.  Queria que eles sentissem seu cheiro e ouvissem sua risada. Seus olhos felizes são incomparáveis.

Queria tanto que você os pegasse no colo. Que a Isa te ajudasse a fazer comida (ela faz isso com a Marina). Que o Bernardo fizesse xixi em você quando fosse trocar a fralda rs. E depois você iria correndo ligar para suas irmãs e cunhadas e contar que ele mijou em você. Aliás, como estão minhas tias? Diga que mandei beijo e que elas fazem muita falta aqui.

Hoje faz 10 anos que você se foi. Uma década sem seu cheiro, sua voz, seu abraço, seus olhos esbugalhados para impor respeito… 10 anos sem suas broncas, sua comida, seus doces. 10 anos sem sua costelinha de porco. 10 anos sem seu sorriso…

Mãe, criar os filhos não é fácil né, mas me espelho em você e, por diversas vezes, me pego pensando em como você faria em determinada situação.

Espero que meus filhos sejam para mim e para a Tá melhores do que eu e o Bé fomos para você. Não que tenhamos sido ruins, mas não fomos tão parceiros quanto você merecia. Mas, se não posso voltar atrás para ser um filho melhor, me esforço ao máximo para ser pelo menos um pouco do que você foi para nós.

Mas, mãe, não quero terminar essa carta de forma deprê. Deixe que com minha dor eu me viro.

Te amo demais. E isso é uma coisa que não tenho do que me arrepender. Sempre disse que te amava, sempre te enchi de beijos. Nas suas últimas horas eu ainda pude dizer para minhas tias que Deus falou que eu podia escolher quem eu quisesse para ser minha mãe, eu olhei e escolhi você, lembra?

Quero que saiba que estou muito feliz. Com uma mulher maravilhosa, dois filhos que são minha maior alegria, uma família que você me deu de presente, muitos amigos, aqueles mesmos que muitas vezes deixei de estar com você para estar com eles, ainda conservo todos.

Enfim, não tenho uma vida perfeita, mas tenho uma vida real. Verdadeira. Tão verdadeira quanto você sempre foi. E acho que é assim que posso definir o que você foi para mim, aliás, o que você É para mim: uma mãe de verdade.

Mais uma vez… te amo. E até qualquer dia.

Beijos.

São Paulo, 01 de janeiro de 2018.

2 comentários em “Uma carta para minha mãe

  1. Fala Vela.

    A Pati, que é bem mais antenada que eu, me disse que vc havia escrito um texto sobre sua mãe. Eu estava lavando louça e ela começou a ler pra mim. Nas primeiras linhas eu já comecei a chorar e pedi pra ela parar…

    Agora, depois de uns trinta minutos intercalando leitura, choro, leitura, choro, choro, risada e choro eu consegui terminar.

    A Pati ficou meio assustada de mer ver chorando tanto e mais uma vez tive que explicar pra ela o que sempre explico para alguns amigos quando falo de vcs. Sempre digo que somos meio que parentes, que vc é seu irmão são meus amigos mais antigos, que fomos criados meio que como primos/irmaos e que, mesmo que as vezes um pouco distantes, quando nos encontramos ou falamos pelo telefone é como se voltássemos no tempo e tivéssemos brincando de “um taca a bola no outro” no quintal da sua casa.

    Sendo assim, se considero vcs meus amigos/primos/irmaos, eu considero sua mãe, no mínimo, como uma tia. Mas não aquelas tias distantes que não encontramos nunca é que respeitamos mais por convenções sociais do que por carinho. Uma tia próxima, que vemos diariamente, que ria de nossos planos “do que ser quando crescer”, de nossas brincadeiras sem pé nem cabeça e que falava que nós seriamos amigos para o resto da vida e que por isso não podíamos brigar nunca.

    Enfim, também sinto falta dela e tenho certeza de que ela deve estar orgulhosíssima das crias e olhando por todos nós.

    Parabéns pelo texto.

    Foda pra caralho.

    E antes que eu me esqueça: vtnc! Cuzão do caralho!

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